terça-feira, 13 de junho de 2017

O mal só existe se você acredita no bem

Pergunta: O mal existe?
Monge Genshô: O mal só existe se você acredita no bem. [...] Para a virtude existe o mal e existe o bem, mas esse ainda é o pensamento dual. A verdade é que “bem” e “mal” não existem porque são distinções classificatórias de uma mente que pensa e divide. Isso depende muito do ponto de vista, por exemplo, um jacaré come um pato numa lagoa. Para o jacaré é uma refeição, para o pato é uma tragédia. Onde está o bem e onde está o mal? Não existe bem e mal, nossas visões são obscurecidas pelas nossas paixões. Se um jacaré matar uma criança acharemos que é um mal, porque é uma criança humana, então mata-se o jacaré. Essa é a visão humana, mas não existe bem e mal na atitude do jacaré, ela é apenas uma manifestação da vida.

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O equilíbrio entre o passado, presente e futuro | Monge Genshô

Como viver no presente se precisamos planejar nosso futuro e lembrar de experiências vividas para utilizar como exemplos para situações do dia a dia?

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre culpa, arrependimento, remorso, perdão (no Budismo)


Pergunta: O que o Lama sugere quando nos culpamos por algo que fizemos e ficamos envoltos pelo sentimento de culpa, ruminando esse sentimento?

Lama Padma Samten: A pessoa precisaria olhar para si mesma com compaixão. A culpa significa um auto-interesse, ou seja, a pessoa gostaria de ter uma manifestação correta, mas não tem, então ela se avalia desse modo, culpando-se. A culpa está associada a uma visão. A pessoa olha para si mesma e é como se tivesse um nível de orgulho também, pois a pessoa gostaria de manifestar aquilo tudo certo, não conseguindo ela lastima que tenha feito aquilo, ela não tem como apagar aquilo que foi feito, então ela arde por dentro com essa culpa.

É preferível que tenha compaixão por si mesma, que tenha compaixão pelos outros, que tenha apreciação por suas próprias qualidades positivas que pode manifestar, apreciação pelas qualidades positivas que os outros podem manifestar também. Quando a pessoa manifesta isso, a culpa desaparece. O caminho mais rápido, se não lembrar de tudo isto, é a lembrança das qualidades positivas que temos. Nós dizemos: ainda que eu tenha feito coisas negativas, não é isso que eu aspiro, eu aspiro fazer coisas positivas; as pessoas se enganam e se atrapalham e fazem coisas negativas e eu também, mas eu tenho qualidades positivas, eu não preciso ficar preso nisso, eu posso fazer coisas boas.

O remorso não ajuda
Aluno: Queria entender a questão da culpa, no Zen...
Monge: Culpa não ajuda. Se você já se arrependeu, já tem culpa, o arrependimento é bom mas não para ficar acalentando remorsos. Se você pensar 'eu não devo fazer isso, isso gera mau carma, más consequências, não vou fazer de novo, vou evitar....' só tem uma maneira de você melhorar seu carma: fazendo boas coisas. E cultivar remorso não vai ajudar, tem que abandonar, deixar de lado o passado, e passar a realmente viver. Acalentar culpa é uma má ideia.
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[...] às vezes a pessoa pode ficar um pouco perturbada em tentar fazer sempre o melhor ou encontrar uma sabedoria que resulte em escolhas mais corretas [...]

Não há que ser perfeito. Não tente. Seja o que você é, um homem comete erros, um homem se engana, na verdade, nós ao tentarmos seguir algum modelo, ficaremos infelizes. Nós temos que fazer a nossa prática de sempre esquecer o passado. O erro do passado é sempre esquecido, agora vou fazer assim, melhor, porque produz menos sofrimento, mais felicidade para mim e para os outros seres.

Eu só estou andando, e a vida se mostra a cada passo. Não tente caminhar e ser perfeito. Não tente ser santo, tente ser só um Bodhisattva, mas um Bodhisattva tem outra visão do mundo.

Nagarjuna foi assassinado, ele era um grande Mestre do século I ou II DC. Os seus discípulos o encontraram esfaqueado, e perguntaram a ele: “quem fez isso”? E ele disse: “eu mesmo”. E os alunos disseram que sabiam que não fora ele que se esfaqueou, que dissesse quem havia feito aquilo, e ele disse: “isso é resultado do meu carma passado, de alguma maneira no meu passado eu criei condições para que isso acontecesse. Então fui eu mesmo que fiz isso. Agora, se eu disse que uma pessoa fez isso comigo aqui e agora, um assassino, vocês o odiarão e o perseguirão, e esse ciclo não terá fim”. E morreu sem revelar. Ninguém sabe quem matou Nagarjuna. Ninguém foi perseguido, não houve nenhuma vingança. Essa é a visão do Bodhisattva.
Fonte

Poema do Arrependimento
Desde a época de Xaquiamuni Buda esse poema tem sido entoado de quinze em quinze dias, nas luas cheias e luas novas de cada mês:

Todo carma prejudicial alguma vez cometido por mim, desde tempos imemoriáveis
Devido à minha ganância, raiva e ignorância sem limites
Nascido de meu corpo, boca e mente
Agora, de tudo, eu me arrependo.

Fonte

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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sobre Vida e Morte

Na reunião passada nós falamos nisso, que as vidas terminam, que tudo termina e tudo cessa. E que não existe um futuro nem para o sistema solar, nem para esse mundo. A longo prazo, o sol vai se tornar num gigante vermelho e vai torrar a Terra. Talvez muito antes disso, nós destruamos a Terra ou a nossa civilização, ou a nossa espécie sofra uma catástrofe gigantesca, assim como os dinossauros sumiram, assim como tantas civilizações na história da humanidade já desapareceram. Várias civilizações das Américas foram assim. E mesmo se da nossa civilização não sobrar nada, essa não é uma visão niilista, porque se nós olharmos mais profundamente do ponto de vista budista, nós pertencemos a um vasto universo, nós somos uma gota num enorme oceano. Não existe como sair daqui. Então não existe na verdade nascimento e morte: eles parecem eventos, mas são manifestações cármicas. 

Se vocês procurarem algum sentido profundo para suas vidas, verão que somos bolhas - surgimos e desaparecemos como relâmpagos, eventos momentâneos dos quais ninguém se lembra depois. Exatamente como vocês, que não se lembram dos seus bisavós (ninguém sabe o nome dos seus oito bisavôs. Eu pergunto isso há centenas de palestras e nunca ninguém falou que sabe de cor o nome dos seus oito bisavós), ninguém vai se lembrar de vocês também daqui a três gerações. Seus corpos estarão apodrecidos ou transformados em cinzas. Pronto.

Mas nossas vidas têm significado, porque se você jogar uma pedra no mar, a configuração das ondas é alterada por toda a eternidade. Então, de um lado somos insignificantes, e de outro somos incrivelmente poderosos. E nossas vidas têm significado cármico, porque mudam o universo. E é isso que temos que pensar: pertencemos ao universo, temos a capacidade de mudar o universo. 

Então vale a pena viver e fazer coisas significativas. E no mínimo vale a pena viver essa vida no que ela tem de maravilhoso. Por isso no budismo dizemos: enjoy your life! Aproveite plenamente sua vida. Mas, para aproveitar plenamente a sua vida, você não pode ficar se preocupando com bobagem. Tem que ver a vida como ela realmente é, com o fluxo passando, e nós como fluxo dentro do próprio universo. E se isso é assim, pode sumir essa Terra, mas o universo continua, e nós continuamos, como ondas nesse universo. 

Eus são enganos, não existem, são só sensações momentâneas. Eu acredito em mim agora, mas não me lembro de um passado anterior a mim nem ninguém lembra. Por isso tem sentido a prática espiritual, porque em geral as pessoas estão perdidas e infelizes. Porque se preocupam com tolices e não aproveitam a vida bem, tal como ela é: ler um bom livro, comer um prato delicioso, ter um amor, são coisas maravilhosas.

Por outro lado, no momento em que você  causa sofrimento aos outros, aí sim não valeu a pena essa vida. É uma vida tola, um mau carma. E tudo tem causa e efeito - portanto as coisas sempre retornam, é esse o sentido de tudo. 

Existe, portanto, sentido e valor na vida. Não é um nada, e também não somos Eus eternos. O budismo nega as duas coisas: o eternalismo, a permanência das coisas, com almas eternas ou deuses eternos, e nega também o niilismo, ou seja, nada tem sentido e não tem valor fazer coisa alguma.

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domingo, 8 de janeiro de 2017

Samsara e Nirvana são modos de ver as coisas

Aluno - Parte do caminho de ver as coisas como realmente são, também passa pelo fato de compreender este ciclo, do samsara de vida e morte. Eu me pergunto, esta insatisfação seria uma desistência da vida como ela é aqui? 

Monge Genshô - Não sei se entendi bem onde você quer chegar, mas é bom nós compreendermos que samsara e nirvana são modos de ver as coisas, aqui no nosso mundo diário, samsara é o mundo da perambulação onde você procura a felicidade em coisas diferentes, você vai procurar uma coisa e depois outra e depois outra e nunca está satisfeito, nós procuramos novos amores, novos empregos, procuramos trocar de carro por que eu vou ficar feliz se eu trocar de carro. Isso eu ouço muito.

Eu tenho um amigo que cujo objetivo é ser bilionário. Ele acha que vai ficar feliz quando for bilionário, porque a mãe dizia a ele que um homem sem dinheiro não é nada, então ele só pensa em ganhar dinheiro e acha que quando alcançar este número, quando tiver um bilhão, ele será um homem feliz e realizado, isto é típico do mundo do samsara, mas, quando alcançar, vai ter um outro problema porque na lista da Forbes, quem tem um bilhão é um bilionário fraco, porque tem gente com 100 bilhões. Ele será pobrezinho no meio dos bilionários. Uma vez eu fui a Mônaco, um lugar onde moram  pessoas muito ricas diferentes de um viajante economizando, no porto havia um iate de 20 metros. Aqui, um iate de 20 metros é de um milionário, o sujeito tem um iate sensacional, mas ali em Mônaco não é nada porque do lado tem um de 100 metros,  tem quase transatlânticos de Sheiks Árabes, alguém gastou uma fortuna enorme para mostrar para os outros bilionários. Então para ser mais sensacional que o outro, manda colocar torneiras de ouro nos banheiros ou qualquer coisa assim. [...]

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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Temos dificuldade em ver a diminuição do sofrimento

O sofrimento diminuiu muito ao longo dos anos, até o séculos XIX era normal uma família perder vários filhos. Bach teve 20 filhos e morreram 10. Tenho uma aluna que é obstetra e ela disse “ninguém mais aceita perder um neném ou uma mãe no parto”, quando ela perdeu uma paciente ficou arrasada. Antigamente morrer no parto era normal, era comum, havia mais homens do que mulheres porque morriam muitas mulheres no parto. Mas o sofrimento mudou, a expectativa de vida aumentou, o preço de tudo que compramos caiu imensamente, hoje temos problema de excessos, porque comemos demais. Se quiserem ler sobre esse assunto há um livro chamado Abundância (Kotler, Steven / Diamandis, Peter H.), que tem muitos dados sobre todas as mudanças que passamos. Existem partes enormes do mundo onde os saltos tecnológicos foram enormes, na África, por exemplo, eles nem chegaram a ter telefones fixos, pularam direto para os celulares. Os saltos são enormes, mas nós não enxergamos com clareza. Na realidade nós nunca tivemos um mundo tão pouco violento, mas parece que não, porque temos muito acesso a informação. Mas nunca houve tão poucos assassinatos no mundo, comparado com o passado, mas nós não vemos a diminuição do sofrimento porque ele está muito presente.

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