quarta-feira, 28 de março de 2012

Anastácia - Mateus Pratagy

A água límpida refletia a luz do sol... e fazia cerrar os olhos de Anastácia. Sentia febre, o mal-estar só aumentava e seu corpo já não se aguentava em pé. Mas para onde ir? Andar pela floresta nunca foi uma de suas diversões diárias. O vestido esplêndido já pesava e nem toda a etiqueta de uma burguesa do século dezenove a fez desistir de tirar as vestes ali mesmo, à beira do lago. Mergulhou os dedos dos pés a fim de saber se a água estava muito gelada. Parece uma atitude estúpida, mas Anastácia era realmente frágil quanto à temperaturas extremas. Por sorte, a água estava deliciosamente convidativa... E seu corpo nu resplandesceu no meio do bosque, conjurando todos os seres animais ao seu encontro.
Então surgiu, discretamente, toda de preto, a figura hermética de um ser encapuzado. Anastácia não sabia o seu nome, tampouco o conhecia, e pôs-se em uma posição fetal e começou a chorar, ali mesmo, ao lado das algas marinhas. Não houve diálogo, apenas um contato físico sugerido pelo dedo em riste do homem negro. Negro não de cor, mas de todo... Anástacia tentava nadar até a superfície, mas suas ações se repetiam sonho após sonho, como se ela acordasse toda vez que completasse seu objetivo. E o homem obscuro chegava cada vez mais perto, uma sombra ameaçadora de dedo em riste.
A esse ponto, nenhum animal podia ver o que acontecia no fundo do lago, pois o sol ofuscava todos os pontos visíveis e invisíveis da floresta. Nem o ser mais incasto das camadas mais baixas da sociedade poderia imaginar o que acontecia no fundo do lago. O primeiro toque finalmente aconteceu, e todo o lugar se silenciou. Lentamente, Anastácia foi perdendo seus sentidos, assim que o dedo descia por todo seu corpo branco. Cada terminação nervosa se excitava a ponto de sobrecarregar o cérebro, causando um colapso nervoso. Os hormônios eram descarregados em rajadas pelos mamilos rosas que apontavam para todo lado... Rapidamente a água gelada do lago se tornou quente e densa, e um gosto amargo tomou conta dos lençois freáticos.
Uma narração sem fim ecoava pela cabeça de Anastácia, que a esse ponto já raspava seus pelos pubianos de vez em quando. Infelizmente, essa não era a ocasião, e o que se seguiu foi enfadonho. Tirando de suas reservas uma pouca energia, agiu de uma vez só sem revezar, deixou para trás o que não importava mais e bateu as pernas em vermelho para cima. Seu rosto intocável, seu cabelo loiro molhado, seus seios inocentes balançavam respingando água para todo lado. Nesse momento, houve festa em um raio de sete hectares, e o corpo de Anastácia foi carregado para debaixo de uma árvore frondosa que derrubava maçãs com sabor de boceta. Adormeceu para acordar três dias depois...
Ao acordar, tomar banho e se limpar, notou que seus pelos haviam crescido demasiadamente. Deitou em cima de uma pedra e começou a falar consigo mesma. Os assuntos variavam, desde sua terra natal até os acordes de uma guitarra elétrica. Queria ouvir pelo menos mais uma vez o som de que tanto gostava... e sentiu uma sensação de abandono. Onde estavam os animais da floresta? Onde estavam seus criados? Onde estavam seus pais? Em um certo momento, sentiu falta até do seu primeiro amante. Parecia que já tinha passado muito tempo desde que ele a tocou a força, e Anastácia sentia falta daquilo. Não precisava mais ficar contando as horas do dia até chegar o momento de brincar com seu pequeno irmão.
Desprovida de senso e moral, guiada pela falta de razão, decidiu-se a escrever uma história. Sentiu que trinta linhas seriam demais para o que queria contar, e rasgou o papel ao meio para que pudesse escrever apenas quinze. Pegou a caneta azul e pulou a boa etiqueta de escrever o cabeçalho e foi direto ao ponto. Após se familiarizar às palavras formadas por sílabas de vogais e consoantes, se excitou demais e trocou algumas letras de lugar. Já chegando ao final, sentia um imenso desânimo em continuar algo que não fazia sentido nenhum. O senso comum de um final condizente a fez chorar, o que lhe deu vontade de ir tomar banho no lago novamente. De volta a prazeres imensuráveis, em sua imaginação sentiu por alguns milésimos de segundos aquele toque de novo... Cheio de reticências, que o bom português não me permite colocar aqui.

Não é possível terminar essa história. Anastácia viveu reclusa como ninguém, nem o ser mais íntimo poderia penetrar em sua consciência a esse ponto. Em meio a animais iluminados, presenças alternadas e desejos incoscientes, soube satisfazer cada minúsculo milimétro cúbico de seu delicioso corpo. A última vez que foi vista, nadava no fundo do lago por horas e horas, ecoando seus murmúrios pelos arredores. Infelizmente, o som foi ficando cada vez mais fraco de forma de que nenhum homem, com seu aparelho comunicativo limitado, pôde ouvir. Uma pena.