domingo, 22 de julho de 2018

Doenças provocadas (uva) - Ana Primavesi

Era desesperador o que acontecia numa cooperativa vinícola, que plantava uvas de mesa. A cada ano apareciam novas doenças e parasitas, embora que fizeram tudo que a agricultura química mandava. Mantinham as plantações abaixo de sombrite e raleavam os cachos. Aplicavam calcário todos os anos, até tanto que o pH já estava ao redor de 8,1. Adubavam todos os anos com NPK, passavam defensivos químicos todos os dias, irrigavam todos os dias, enterravam cada ano 20 litros de composto por pé, plantavam adubos verdes, sempre leguminosas, mantinham o solo coberto por uma camada de palha e mesmo assim as doenças aumentaram.
Queriam que fizesse uma palestra. Mas sobre o que? Agricultor não se interessa saber alguma coisa teórica. Ele quer saber exatamente o que ele precisava. Quer saber o que fazer, enquanto que o técnico quer saber por que se faz. O "porquê" é teoria, e o "o quê" é prática.
Também já me tinham avisado que os agricultores normalmente não apareciam nos eventos que a cooperativa promovia. Viria uma meia dúzia dos 125 cooperados. Sempre foi decepcionante. Bem, isso era assunto deles. Mas como eu podia falar sobre algo que não conhecia? Tinha de visitar primeiro alguma propriedade. Pelo que diziam que eles faziam, parecia a vinícola que tinha de ser um paraíso de produtividade. Mas não era. Era somente um paraíso de doenças.
Visitei uns agricultores. A terra era superirrigada e meio encharcada. Como nesta região tinha anualmente seis a sete chuvas de pedra, protegiam as videiras com sombrites. Mas os sombrites estavam um tanto baixos e, embora não seja alta, tinha de andar curvada. Olhei para cima, para ver as folhas e me chamou a atenção o fato de haver muitas folhas pequenas e outras com nervuras entupidas, que não eram verdes, mas de cor marrom. Estranhei. Nervuras entupidas são típicas para a deficiência de cálcio ou seu oposto, o excesso de manganês. Como eles conseguiram o excesso de manganês com tanto calcário e pH elevado? Eu teria sido enganada? Tentei adivinhar o segredo, mas finalmente desisti e perguntei:
- Como vocês produzem este excesso de manganês com tanto calcário?
O agricultor riu.
- Muito simples. Pulverizo todos os dias contra Botrytis com Maneb, que contém manganês.
Assustei-me. Mas, se há o excesso de manganês e a deficiência de cálcio, logo vão ter também antracnose. O homem me olhou.
- Já tem - disse ele secamente.
- E o que faz contra isso? - eu quis saber.
- Coloco um excesso de fósforo. Controla bem.
Nesse momento me deu um estalo. É por isso que você tem a deficiência de zinco em todos os pés! É o excesso de fósforo que induz esta deficiência. Com isso vai ter logo uma broca no tronco.
O homem me olhou desconfiado.
- Como sabe? Este ano já apareceu também.
Aí me lembrei do Chaboussou: as plantas doentes dos pesticidas. Será possível? [...]

Ana Primavesi

Fonte: livro "Pergunte ao Solo e às Raízes".

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Nos libertando da prisão da auto-imagem.

Olá,

Muito da nossa vida é gasta tentando se viver das auto-imagens, e raramente nós temos a disposição de olhar para elas honestamente. Na verdade, é muito difícil sermos honestos com nós mesmos, especialmente quando temos simultaneamente auto-imagens positivas e negativas e não conseguimos perceber nossas inconsistências. De acordo com Ezra Bayda, em seu texto “Nos libertando da prisão da auto-imagem”, isso acontece porque todos nós usamos o que ele chama de “viseiras” – uma defesa psicológica que não deixa uma parte de nós enxergar a outra parte. Por exemplo, se queremos nos enxergar como bons vamos ignorar todas os nossos atos egoístas ou danosos. Ou, se começamos a nos enxergar como indignos ignoramos todas as nossas atitudes positivas. Isso é mais comum do que pensamos.

Nossas auto-imagens e identidades se tornam parte e parcela das histórias que tecemos sobre nós mesmos. Quase sempre essas histórias são versões distorcidas da realidade sobre quem realmente somos ou de como estamos nos sentindo – nossa história, nossas vitimizações, o porquê de estarmos zangados e por ai vai… Nós percebemos que estamos presos a uma historinha quando falamos para nós mesmos: “Eu sou inútil”, ou “Eu estou deprimido”, ou “As pessoas deveriam gostar de mim”. Estamos claramente presos a histórias quando falamos “Eu sou assim porque….” e colocamos a culpa em alguém – nossos pais, por exemplo ou em alguma coisa que aconteceu conosco . Nós também podemos perceber que estamos envoltos em uma de nossas histórias quando pensamos “Eu sou o tipo de pessoa que…” ou “Eu não sou o tipo de gente que…”. Por exemplo, “Eu sou o tipo de pessoa que tem que ficar sozinho” ou “Eu não sou o tipo de pessoa que pode ser disciplinada”. O ponto é, que de acordo com o autor, a maioria das nossas histórias são auto-enganos que foram gerados só com um lado da verdade – só com o lado que nos vimos e nos sentimos naquele determinado momento. E viver dessas histórias e acontecimentos só nos afasta de vivermos uma vida mais autêntica.

Leia o texto completo no site e veja a sugestão do autor de como podemos ir além das nossas auto-imagens e das nossas histórias.