quarta-feira, 13 de março de 2013

Éliphas Lévi / Eliphas Levi - O Grande Arcano ou Ocultismo desvendado (Le Grand Arcane ou l'Occultisme dévoilé) 1868 1869

Os animais são submetidos pela Natureza a um estado fenomenal que os impele à reprodução a que chamamos cio. Só o homem é capaz de um sentimento sublime que lhe faz escolher sua companheira e que tempera pelo devotamente mais absoluto a aspereza do desejo. Este sentimento se chama Amor. Entre os animais o macho copula indistintamente com todas as fêmeas e as fêmeas se submetem a todos os machos. O homem é feito para amar uma só mulher e a mulher digna de respeito se conserva para um só homem.
No homem como na mulher o arrastamento dos sentidos não merece o nome de amor; é alguma coisa semelhante ao cio dos animais. Os libertinos e as libertinas são brutos.
O amor dá à alma a intuição do absoluto porque é por si mesmo absoluto ou não existe. O amor que se desperta numa grande alma é a eternidade que se desperta.
Na mulher que ama o homem vê e adora a divindade materna e dá para sempre seu coração à virgem a que aspira condecorar com a dignidade de Mãe.
A mulher no homem que ama adora a divindade fecunda que deve criar nela o objeto de todos os seus votos, o fim da sua vida, a coroa de todas as suas ambições: o Filho.
Estas duas almas não fazem mais que uma que deve completar-se por uma teceira. É o homem único em três amores como Deus existe em três pessoas.
Nossa inteligência é feita para a verdade e nosso coração para o amor. É por isso que Santo Agostinho diz com razão dirigindo-se a Deus: "Tu nos fizestes para Ti, Senhor, e o nosso coração é atormentado até que tenha encontrado o seu descanso em Ti"; ora, Deus, que é infinito, só pode ser amado pelo homem como intermediário. Faz-se amar pelo homem na mulher e no homem pela mulher. É por isso que a honra e a felicidade de ser amados nos impõem uma grandeza e bondade divinas.
As almas vivem de verdade e de amor; sem amor e sem verdade sofrem e perecem como corpos privados de luz e de calor.
O amor é uma preferência absoluta que xige a reciprocidade, porém não pode existir sem uma confiança absoluta, que o ciúme vulgar tende naturalmente a destruir.
Julgai também o amor conforme as suas obras, se eleva a alma, inspira o devotamento e as ações heróicas, se apenas tem ciúme da felicidade do ser amado. Se é capaz de sacrificar-se para a honra e descanso da pessoa a quem ama, é um sentimento imortal e sublime; porém se enerva a vontade, se abaixa as aspirações, se faz desprezar o dever, é uma paixão fatal e é preciso Vencer ou Morrer.
Quando o amor é puro, absoluto, divino, sublime, é por si mesmo o mais sagrado de todos os deveres.
Palavra de Salomão: o amor é mais inflexível que o inferno.
O verdadeiro amor é a revelação brilhante da imortalidade da alma; seu ideal para o homem é a pureza sem mancha e para a mulher a generosidade sem desânimo. Tem ciúme da integridade desde ideal tão nobre; o sonho eterno do amor é a mãe imaculada.
A impureza é a promiscuidade dos desejos; o homem que deseja todas as mulheres, a mulher que ama os desejos de todos os homens, não conhecem o amor e são indignos de conhecê-lo. É permitido à mulher ser bela, porém ela só deve desejar agradar àquele que ela ama ou aquele que poderá amar um dia.
A integridade do pudor da mulher é especialmente o ideal dos homens e é o assunto do seu ciúme legítimo. A delicadeza e a magnitude no homem é o sonho especial da mulher e é neste ideal que ela encontra o estimulante ou o desespero do seu amor.
O casamento é o amor legítimo. Um casamento de conveniência é um casamento de desespero; porém o amor não obedece sempre às conveniências sociais e aquele que se casa sem amor muitas vezes deposa uma probabilidade de adultério. A mulher que ama e casa com o homem a quem não ama faz um ato contra a Natureza ou as leis universais.
Há um ente diante de quem uma mulher, digna desde nome, nunca deve resignar-se a enrubescer: é o homem que achou digno do seu primeiro amor. Compreendemos que um homem de coração despose e reabilite, assim, uma moça honesta que foi seduzida, depois abandonada.
Desposar uma mulher que se deu a outro e a quem este outro não abandonou é desposar a mulher de outro casamento nulo diante da Natureza e da dignidade humana.
Abjudar publicamente seu pensamento sem estar convicto de que é falso é a apostasia do espírito; abjurar o amor quando a gente sente que ele existe eis aí a apostasia do coração.
Os amores que mudam são caprichos que passam; aqueles de que nos devemos envergonhar são fatalidades cujo jugo devemos sacudir.
O amor verdadeiro é uma paixão invenível motivada por um sentimento justo, e nunca pode estar em contradição com o dever, porque se torna o mais absoluto dever; porém a paixão injusta constitui o amor fatal e é a este que devemos resistir; poderíamos dizer que o amor fatal é o príncipe dos demônios, porque é o magnetismo do mal armado com todo o seu poder, e nada pode limitar ou desarmar os seus furores. É uma febre, é uma demência, é uma raiva. As recordações nos torturam, os desejos enganados nos desprezam, saboreamos a morte e, muitas vezes, prefere-se antes sofrer e amar que morrer. Qual o remédio para esta doença? Como curar as picaduras desta flecha envenenada? Quem nos tirará das aberrações desta loucura? - Para curar do Amor Fatal é preciso romper a cadeia magnética precipitando-se noutra corrente e neutralizando uma eletricidade pela eletricidade contrária: afastai-vos da pessoa amada; nada guardeis que vo-la lembre; abandonai até o vosso vestuário com o qual ela vos tenha visto. Imponde-vos ocupações fatigantes e múltiplas, nunca fiqueis ocioso, nem a sonhar; esgotai-vos de cansaço durante o dia para dormir profundamente à noite; procurai uma ambição ou um interesse a satisfazer, e para encontrá-los, elevai-vos acima do vosso amor. Assim chegareis à tranquilidade, senão ao esquecimento. O que é preciso evitar principalmente é a solidão nutridora dos enternecimentos e sonhos, a menos que a pessoa não se sinta atraída pela devoção e que não procure nos suplícios voluntários do corpo o abrandamento das penas da alma.
O que é preciso pensar principalmente é que o absoluto nos sentimentos humanos é um ideal que nunca se realiza neste mundo, que toda beleza se altera e que toda vida se esgota; que tudo passa, enfim, com uma rapidez que parece prestígio; que a bela Helena se tornou uma velha cabeça desdentada, depois um pouco de pó e enfim nada.
Todo amor que não se pode e não se deve confessar é um amor fatal. Fora das leis da natureza e da sociedade nada há de legítimo nas paixões e é preciso condená-las ao nada desde o nascimento, esmagando-as sob este axioma: o que não deve existir não existe. Coisa alguma desculpará o incesto ou o adultério. São coisas cujo nome os ouvidos castos temem e cuja existência as almas simples e puras não devem admitir. Os atos que a razão não justifica não são atos, são bestialidades e loucura. São quedas após as quais é preciso relevar-se e limpar-se para não guardar as suas manchas; são torpezas que a decência deve ocultar e que a moral, purificada pelo sopro magnético, não poderia admitir, mesmo para puni-las. Vede Jesus na presença da mulher surpreendida em adultério: não escuta os que a acusam, não a olha para não ver sua vergonha e, quando o importunam para que a julgue, ele a repreende com esta grande palavra que seria a supressão de toda penalidade imposta pela justiça humana se não quisesse dizer que certos atos devem permanecer desconhecidos: levantai-vos e de ora em diante procurai não mais cair.
Jesus não admite o adultério; chama-o fornicação e como único castigo autoriza o homem a despedir aquela que foi sua mulher. A mulher por sua vez tem o direito de abandonar um marido que a engana. Então se não tem filhos torna-se livre diante da natureza. Porém se for mãe perde o direito sobre os filhos do seu marido a não ser que este seja notoriamente infame. Renunciando a ele renuncia a seus filhos.
As fêmeas dos pássaros jamais abandonam seu ninho enquanto os filhotes não tiverem asas; por que seriam as mulheres piores mães do que as fêmeas dos pássaros?
O ideal do absoluto em amor diviniza por assim dizer a geração do homem e este ideal exige a unicade do amor. Este belo sonho do cristianismo é a realidade das grandes almas e é para nunca aviltar-se nas promiscuidades do velho mundo que tanto corações amantes foram aos claustros viver e morrer num desejo eterno.
Se é verdade que o pobre homem morreu em consequência do desgosto que lhe causou a descoberta de uma infidelidade de Teresa, é preciso admirá-lo e lastimá-lo; seu coração era feito para amar.
Para um coração digno de amor só existe no mundo uma mulher, porém a mulher, esta divindade da terra, se revela às vezes em várias pessoas como a divindade do céu e suas encarnações são muitas vezes mais numerosas que os avatares de Vishnú. Felizes dos crentes que não desanimam nunca e que, nos invernos do coração, esperam a volta das andorinhas.

O sol brilha numa gota de água; é um diamante, é um mundo; feliz daquele que quando a gota de água seca não pensa que o sol vai embora. Todas as belezas que passam são apenas reflexos da beleza eterna, objeto único dos nossos amores. Queria ter os olhos de águia e voar para o sol, porém se o sol vem a mim distribuindo seus esplendores nas gotas de orvalho, agradecerei à Natureza sem muito afligir-me quando o diamante desaparecer. Oh! Para esta inconstante criatura que não mais me ama, para a sede de ideal do seu coração, eu também era uma gota de água; devo eu acusá-la e maldizê-la porque a seus olhos me tornei uma lágrima dissolvida em que não vê mais o sol?
Ousai afirmá-lo de um modo claro e ousado. Ousareis, se o quiserdes; o pensamento é a luz das almas, não luteis contra o fenômeno divino que se realiza em vós, abri os vossos olhos interiores, dizei: faça-se luz e a luz se fará para vós.
Filho do Criador, olha estes milhares de universos que vivem na imensidade e inclina-te diante da soberana inteligência do teu Pai.
A matéria não poderia mover-se sem que o espírito a dirigisse.
Eis que aparecem formas para todas as forças da natureza, que são impelidas pela autonomia suprema a tornar-se por si mesmas autônomas e vivas. Todas estas forças te serão submissas e todas se conformam com as figuras do teu pensamento; porém para impôr-lhes teu poder é preciso dominar em ti mesmo os vícios de que vários deles são o exemplo (cólera, vaidade, orgulho) se fores glutão como o porco, lascivo como o bode, feroz como o lobo ou ladrão como a raposa, não és mais que um animal mascarado com uma figura humana. Rei dos Animais, levante-te na tua dignidade e da tua dignidade façamos o Homem; dize: quero ser um Homem e serás o que quiseres ser, porque Deus quer que sejas um Homem, porém espera teu consentimento porque te criou livre; é que só a liberdade pode compreender e honrar o poder divino; é que Deus precisa desta grande dignidade do Homem para que o Homem possa adorar legitimamente a Deus.
O Ocultismo de Deus é necessário como o da Ciência.
Deus tem duas mãos; uma para castigar, outra para revelar e abendoçar. A primeira é presa pela ignorância e a fraqueza do homem. A outra quer sempre estar livre e é por isso que Deus, não constrangindo nunca a vossa fé, respeita a nossa liberdade.
A marcha do espírito humano separado de Deus é rápida.
Desagrado tanto aos cristãos de Veuillot como aos filósofos de Proudhon. Isso não deve admirar-me, eu o esperava, não me aflijo por isso e nem direi que me vanglorio. Gostaria mais de agradar a todos porque amo sinceramente todos os homens. Porém enquanto for necessário escolher entre a verdade e a estima de quem quer que seja, mesmo dos meus amigos mais caros, escolherei sempre a verdade. É que ela tem as chaves da vida eterna; sentimos que se ela se apaga Deus se furta para sempre de nós e a imortalidade da alma vai-se embora.

A igreja é a caridade. Tudo o que é contra a caridade é contra ela. Ela se perpetua e se sustenta pela caridade. É pelo milagre permanente das suas boas obras que ela deve provar ao mundo sua divindade. Para assegurar seu reino na Terra não deve alistar zuavos porém criar santos. Como pode ela esquecer estas grandes palavras do Mestre "procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo"?
A morte aparente não é mais que um trabalho regenerador e uma transfiguração.

Os sacerdotes do Egito tinham sem dúvida conhecimentos naturais que só deviam chegar aos nossos muito amis tarde; os magos assírios conheciam a eletricidade e sabiam imitar o raio.
Os sábios do mundo antigo convencidos da necessidade do ocultismo escondiam com cuidado as ciências que os tornavam até certo ponto senhores da natureza.

Deus fez-se homem a fim de fazer Deus aos homens. Deus encarnado é a humanidade divinizada. Quereis ver a Deus, olhai para vossos irmãos. Quereis amar a Deus, amai-vos uns aos outros. O que fazeis ao menor, isto é, talvez ao mais ignorante, ao mais culpado dentre vossos irmãos, vós fazeis a mim e a Deus. Compreendestes isto, miseráveis inquisidores, quando torturastes a J.C., quando queimastes a Deus!
Certamente a poesia é maior que a ciência, e a fé é grandiosa e magnífica quando domina e subjuga a razão.

Entre as forças de que podemos fazer uso, quer para o bem, quer para o mal, é preciso contar em primeiro lugar o poder da Fascinação; todos os grandes sentimentos são fascinações e todos os verdadeiros grandes homens são fascinadores da multidão; infelizes das profanas multidões que não são mais fascinadas pelo ideal dos grandes poderes! Infeliz do tolo que permanecendo tolo não crê mais na missão divina do padre nem no prestígio providencial do rei! Porque lhe é necessário uma fascinação qualquer, sofrerá a do ouro e dos gozos brutais e será precipitado fatalmente fora de toda justiça e de toda verdade. A própria natureza quando se trata de forçar os entes a realizar seus grandes mistérios, age como soberana sacerdotiza e fascina ao mesmo tempo sentidos, espíritos e corações. Duas fatalidades magnéticas que se encontram formam uma providência invencível a que damos o nome de amor. A mulher então se transforma e torna-se uma sílfide, uma peri, uma fada, um anjo. O homem torna-se um herói e quase um Deus. [...]
Há dois grandes poderes na humanidade: o gênio que fascina e o entusiasmo que vem da fascinação.
Existe um magnetismo animal porém acima deste que é puramente físico é preciso contar o magnetismo humano que é o verdadeiro magnetismo moral. As almas são polarizadas como os corpos e o magnetismo espiritual ou humano é o que chamamos a força da Fascinação.
Os entes incompletos que não têm a felicidade de sofrer uma fascinação inteligente caem por si mesmos sob o império das fascinações fatais; assim se produzem as paixões vertiginosas e as alucinações de amor próprio entre os imbecis e os loucos.
Há fascinações luminosas e fascinações negras.


A sociedade se compõe de um pequeno número de sábios e de uma multidão de insensatos. Como fazer para chegar a isso? Desde que o sábio se mostra como é, repelem-no, caluniam-no, exilam-no, crucificam-no. Os homens não querem ser convencidos, esperam imposições; que é de fato um revelador? É um impostor desinteressado que, para levar de um modo disfarçado ao bem, engana a vil multidão. Que é a vil multidão? É a turba imensa dos tolos, imbecis e loucos, sejam quais forem, aliás, seus títulos, seus lugares na sociedade e suas riquezas.

Depois o homem cessa de ser amável e proclama a vaidade do amor, se extenua e não crê mais nos gozos que as riquezas dão; os erros e os abusos da glória o desgostam até dos triunfos. Seu entusiasmo se esgota, sua generosidade se gasta, torna-se egoísta e desconfiado; então duvida até da ciência e da sabedoria e Salomão escreve seu triste livro do Eclesiastes.
Que resta então do belo jovem que escrevia: "minha bem amada é única entre as belas, o amor é mais invencível que a morte e aquele que desse toda a sua fortuna e toda a sua vida por um pouco de amor ainda o teria comprado por nada"? Oh, lede agora isto no Eclesiastes: "encontrei um homem entre mil e, entre todas as mulheres, nem uma. Considerei todos os erros dos homens e achei que a mulher é mais amarga que a morte. Seus encantos são os laços do caçador e seus fracos braços são cadeias". - Salomão, envelhecestes.


vereis sempre nas tendências dos heresiarcas uma aparência de progresso e de razão.
um homem verdadeiramente homem para pensar em Deus não tem mais necessidade de sentir que deve ser justo, que lhe falem de um grande remunerador ou de um eterno vingador. é perfeitamente advertido pela sua consciência e pela sua razão.

Envelheci e embranqueci-me nos livros mais desconhecidos e mais terríveis do Ocultismo; meus cabelos caíram, minha barba cresceu como a dos sacerdotes do deserto; procurei e encontrei a chave dos símbolos de Zoroastro; penetrei nas criptas de Manés, surpreendi o segredo de Hermes, esquecendo de roubar-me uma ponta do véu que esconde eternamente a grande obra; sei o que é a esfinge colossal que lentamente penetrou na areia contemplando as pirâmides. Penetrei nos enigmas dos brâmanes. Sei que mistérios Shimeon Ben Jochai enterrava consigo durante doze anos na areia; as clavículas perdidas de Salomão me apareceram resplandecentes de luz e li correntemente nos livros que o próprio Mefistófeles não sabia traduzir a Fausto. Pois bem, em nenhum lugar, nem na Pérsia, nem na Índia, nem entre os palimpsestos do antigo Egito, nem nos grimórios malditos subtraídos às fogueiras da idade média encontrei um livro mais profundo, mais revelador, mais luminoso nos seus mistérios, mais espantoso nas suas revelações esplêndidas, mais certo nas suas profecias, mais profundo perscrutador dos abismos do homem e das trevas imensas de Deus, maior, mais verdadeiro, mais simples, mais terrível e mais doce do que o Evangelho de Jesus Cristo.
Os Cristãos aniquilaram os leões e o mundo inteiro!
Tudo me é permitido - dizia São Paulo - porém tudo não é conveniente, o que quer dizer que temos o direito de fazer tudo o que não prejudica a nós nem aos outros e que a nossa liberdade só é limitada pelas advertências da nossa consciência e da nossa razão.

Vede as crianças; que irradiação nos seus olhos, crença imensa na luz, na felicidade, na infabilidade de sua mãe, nos dogmas de sua ama! Que mitologia nas suas invenções! Que alma atribuem aos brinquedos e bonecas! Que paraíso nos seus olhos! Ó anjos bem amados! Os espelhos de Deus na Terra são os olhos das criancinhas.


Dizem e repetem todos os dias que as pessoas de bem são infelizes neste mundo, ao passo que os maus prosperam e são felizes. É uma estúpida e abominável mentira. Esta mentira vem do erro vulgar que confunde a riqueza com a felicidade; como se pudéssemos dizer sem loucura que Tibério, Calígula, Nero e Vitéllio foram felizes. Contudo, eram ricos e além disso eram senhores do mundo e, não obstante, seus corações estavam sem descanso, suas noites sem sono e sua consciência era chicoteada pelas fúrias. -
Acaso um porco se tornaria homem se lhes servissem trufas num balde de ouro? A felicidade está em nós e não nos nossos pratos. - Não discordo que há pessoas de bem que sofrem a pobreza e até a miséria; porém geralmente muitas vezes é a pobreza que conserva a honestidade delas. A riqueza talvez as corrompesse e perdesse.


As duas serpentes do caduceu são as duas correntes contrárias do magnetismo universal.
A serpente de luz criadora e conservadora e a serpente de fogo eterno que devora para regenerar.
Os bons são imantados, vivificados e conservados pela luz imperecível; os maus são queimados pelo fogo eterno.
Há comunhão simpática entre os filhos da luz, todos banham na mesma fonte de vida; são todos felizes pela felicidade uns dos outros.
O magnetismo positivo é a força que reúne e o magnetismo negativo é uma força que dispersa.
A luz atrai a vida e o fogo traz consigo a destruição.
O magnetismo branco é a simpatia e o magnetismo negro é a aversão.
Os bons amam-se uns aos outros e os maus se odeiam uns aos outros, porque se conhecem.
O magnetismo dos bons atrai para eles tudo o que é bom e quando não lhes atrai as riquezas é porque elas lhes seriam más.
Existe realmente e em verdade uma atmosfera do bem como uma atmosfera do mal. Numa respiramos a vida eterna e na outra a morte eterna.
Toda cabeça santa irradia e as irradiações dos  santos se entrelaçam umas com as outras para formar cadeias de amor.
Dissemos e repetimos solenemente ainda, o Céu simbólico, o Céu que as religiões prometem ao justo não é um bem, é um estado das almas, o Céu é a Generosa Harmonia Eterna, o irremediável inferno é o conflito inevitável dos instintos vis.
O homem pode tudo o que quer quando só quer a Justiça. Pode até, se o quiser, precipitar-se na injustiça, porém nela se destruirá. DEUS se revela ao homem no homem e pelo homem. Seu verdadeiro culto é a CARIDADE.
Há apenas um único e verdadeiro poder na terra como no céu: é o do bem. Os justos são os únicos senhores do mundo. O mundo tem convulsões quando eles sofrem e se transforma quando morrem. A pessoa justa é inviolável; infeliz de quem a toca! O que um justo quer, Deus aprova. O que um justo escreve, Deus assina e é um testamento eterno.
Deus é, por assim dizer, a cabeça da Natureza; sem Ele ela não existiria; sem ela Ele não se manifestaria. Deus é nosso pai, porém a Natureza é nossa mãe. Honra teu pai e mãe, diz o decálogo, a fim de que vivas longamente na Terra.
Amemos a Deus uns nos outros porque Deus jamais se mostrará por outra forma a nós. Deus é luz e não gosta das trevas. Se pois quisermos sentir Deus em nós esclareçamos as nossas almas.

A espécie humana atual, longe de progredir, degenera. Um espantoso fenômeno se realiza nas almas, os homens não tem mais o sentimento divino. A poesia morreu nos corações. Acontece com o amor como com a honra: é um velho santo que não mais se guarda. O próprio nome do maior sentimento que a natureza possa inspirar não está mais em voga na conversação das pessoas de bem e talvez logo cairá no vocabulário obsceno. Em que pensam as moças mais honestas e mais violadas, por exemplo, aquelas que são educadas no convento dos pássaros ou do sagrado coração? Será nas carícias de uma afeição mútua? Elas pensam nos esplendores de um casamento rico, sonham com uma carruagem e um castelo. Com isto haverá certamente um marido com o qual haverá necessidade de acomodar-se; porém, contanto que tenha nome, saiba apresentar-se bem e coloque bem a sua gravata, será mais que suficiente; verifico um enfraquecimento moral na espécie humana. Para concluir daí que o magismo está mais que nunca em tempo e que, com tão pobres entes, é preciso fascinar para triunfar.

Encontram-se no Evangelho preceitos cuja sublimidade podia ser perfeitamente apreciada outrora e que seriam quase ridículos hoje, porque os homens não são mais os mesmos.
Vai-te assentar no último lugar, diz Jesus, e te convidarão a passar para o primeiro.
Se te assentares no último lugar, aí ficarás e será bem feito, responde a isto o mundo moderno.

Se quiseres tirar-te a túnica, dá também teu manto, diz o Evangelho.
E quando ficares nu, um guarda civil te levará ao posto, por ultraje aos bons costumes.

Não penseis no dia de amanhã, diz o Salvador.
E o dia que seguir aquele em que a miséria vos surpreender, ninguém pensará em vós, responde o mundo.
Eis o que responderam às máximas talvez mais sublimes do Evangelho o espírito do nosso século.

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