segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Deus - Dicionário de Filosofia (Gérard Legrand)

"DEUS: em grego, the-os, palavra de origem desconhecida; em latim, deus, aparentado com um grupo indo-europeu que designa um "dia luminoso". Objeto supremo e sobrenatural dos pensamentos, crenças e práticas que constituem a religião. A formação da "ideia" de Deus foi atribuída por certas religiões à revelação primitiva de sua existência e, pela crítica científica, ao medo do homem diante da natureza, à aparição noturna ou em sonhos das almas dos mortos, à adoração dos astros, principalmente o Sol, ou ao conjunto dos fenômenos naturais.
Para os gregos, fundadores da filosofia, os deuses ou demônios estavam por toda parte. A locução "o theós" designa correntemente "um deus" sem outro nome, uma espécie de individualidade ao mesmo tempo natural e sobrenatural. Essa noção não se integra especialmente na filosofia, mas ela abrange as noções de uma "aparição súbita", como a auréola de uma luz, e de uma evidência que impele à contemplação. Alguns gregos professaram o ateísmo; outros, mais numerosos, zombaram das crenças populares e anunciaram o monoteísmo. Mas a piedade antiga nunca foi uma fé no sentido moderno da palavra. A incorporação da filosofia pelo cristianismo desloca a noção de Deus. É sobre um Deus ao mesmo tempo onipotente e dotado de uma dogmática complexa que é preciso se pronunciar. De maneira abstrata, atribui-se à filosofia helenística e romana (Cícero) as provas de sua existência.
Ele é criador (Descartes), Providência (Leibniz), de maneira mais ou menos em conformidade com os ensinamentos extrafilosóficos. A validade desses raciocínios inspira a Pascal um célebre protesto: "Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos ou dos sábios".
Contra as provas tradicionais, Kant levanta uma série de objeções que só permitem a subsistência do apelo ao sentimento e ao sublime, já esboçado por Rousseau. Mas é um Deus desencarnado e isento de toda sublimidade que o Kantismo legará ao pragmatismo, enquanto Hegel dissimula sob a máscara de Deus o "pensamento do Absoluto". Feuerbach tenta conduzir a teologia a uma antropologia e o marxismo renova o ateísmo materialista. Nietzsche anuncia que "Deus está morto", mas acrescenta que "sua sombra continua a dominar a cultura ocidental". Outros pensadores (Auguste Comte, Durkheim) só vêem em Deus a "sublimação" da sociedade. A psicanálise nele reconhece uma projeção de pressões parentais, e talvez a sexualidade em sua essência.
Esta revisão histórica permite esta pergunta: como se apresenta hoje o conceito propriamente filosófico e correspondente à noção de Deus? Sempre se pode defini-lo como o princípio único e supremo de toda existência, de toda causalidade, de toda finalidade. Mas esta definição só propõe a posição do princípio, não a das associações de ideias que lhe são comumente atribuídas. Para o cristianismo, Deus tornou-se um objeto de fé ao qual se atribuem qualidades de uma pessoa moral e não uma articulação pura do pensamento. É legítimo anexar a uma abstração sociológica o Deus da religião. Mas é ilegítimo aplicar o nome de Deus ao Ser em si, ao Absoluto dos metafísicos que não o reivindicam nem o descartam expressamente. Mesmo transcendente, o Absoluto não tem necessidade de ser uma pessoa. Para um filósofo crente, Deus faz parte da religião primeiro, de sua filosofia em seguida: ele não se comprova".
Gérard Legrand (Dicionário de Filosofia)

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