quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Se o poder da produção do homem moderno é mil vezes superior ao do homem das cavernas, por que, pois, existem atualmente milhões de pessoas que não tem alimentação e teto conveniente? - Jack London

"Depois de ter feito um resumo da situação econômica dos homens das cavernas e dos povos selvagens de nossos dias, que não tinham nem ferramentas, nem máquinas e possuíam apenas seus meios naturais para produzir a unidade da força individual, traçou o desenvolvimento dos instrumentos de trabalho e da organização até o ponto atual onde o poder produtor do indivíduo civilizado é mil vezes maior que aquele do selvagem.
"Cinco homens são suficientes presentemente para produzir pão que alimente a um milhar de seus semelhantes. Um só homem pode produzir tecidos e calçados para mil. Fica-se com a tentação de concluir que numa boa administração da sociedade a vida do civilizado moderno deveria ser muito mais confortável que a do homem pré-histórico. É assim? Examinemos a questão. Existem hoje milhões de homens vivendo na pobreza: e por pobreza entendo a condição de subalimentação e de falta de abrigo conveniente, não podendo ser mantido o nível da capacidade de trabalho. Hoje, a despeito de toda nossa pretensa legislação trabalhista existem milhões de crianças empregadas como trabalhadores.
Se o poder da produção do homem moderno é mil vezes superior ao do homem das cavernas, por que, pois, existem atualmente milhões de pessoas que não tem alimentação e teto conveniente e milhões de crianças que trabalham? É uma acusação séria. A classe capitalista é culpada da má administração. Em presença desse fato, desse duplo fato, que o homem moderno vive mais miseravelmente que seu antepassado selvagem quando seu poder produtor é mil vezes maior, nenhuma outra conclusão é possível senão a de que a classe capitalista governou mal, e que sua má gestão é um crime imputado ao egoísmo dos senhores".
(editado)

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"0,9% da população detém 70% da economia mundial" Jack London, 1908

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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Dalai Lama surpreende plateia e diz que se considera Comunista

“Eu me considero um marxista”, foi assim que Dalai Lama ganhou o destaque em vários noticiários do mundo – não tantos quanto deveria, na verdade.

O líder estava perante 150 estudantes, num tipo de conversa/palestra na Universidade americana de Minnesota, quando surpreendeu a todos: “Em relação às questões sócio-políticas, eu me considero um marxista. Mas não sou leninista”

Certo burburinho na plateia foi notado, pois líderes espirituais geralmente se omitem de questões políticas, ou não são politizados a ponto de declarar até qual vertente dentro da vertente maior, eles participam. Ainda mais se tratando do marxismo e, principalmente, do país onde ele cedeu tal declaração, o rei maior do capitalismo, a terra do Tio Sam.

Logo a conversa foi praticamente só redirecionada para esse assunto. Perguntaram, então, se ele não via certa contradição e incoerência na sua posição, por ser um ícone do budismo:  ”Marx não era contra a religião ou filosofia religiosa em si, mas contra as instituições religiosas aliadas a classe dirigente européia”.

Dalai ainda lembrou um fato curioso, quando ele encontrou o icônico ex-presidente chinês Mao Tsé-Tung, num reunião em Pequim. O líder político teria dito que a mente do líder espiritual é científica. Isso logo depois da célebre frase “a religião é veneno” – que lembra, inclusive, a afirmação de Marx ao dizer que a religião é o ópio do povo.

Fato é que  estou ao lado do budista, neste ponto. Marx era contra as instituições religiosas e sua frase não é uma singela crítica às crenças pessoais, mas sim ao que é feito a partir/para essa fé.

Em suma, curioso é pensar em, a partir das antigas propagandas políticas nos Eua e no Brasil, quantas criancinhas Dalai Lama já comeu.

Nós temos, inclusive, um super especial que analisa O Manifesto Comunista. Para acessar:
O Manifesto Comunista. Cap. 03 [final]. Literatura socialista e comunista – Karl Marx e Friedrich Engels.
O Manifesto Comunista. Cap. 02. Proletários e Comunistas. – Karl Marx e Friedrich Engels.
O Manifesto Comunista. Cap. 01. Burgueses e Proletários. – Karl Marx e Friedrich Engels.

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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Jack London - Escritos Políticos 1905 2003

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Jack London - Antes de Adão 1906 1907

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Jack London - Martin Eden 1909 1976

184 Só estou mantendo meu direito enquanto indivíduo. Acabei de lher dizer o que penso. As autoridades mundiais podem estar todas com a razão. Mas eu sou eu e não vou subordinar meu gosto ao juízo unânime da humanidade. Se eu não gostar de uma coisa, não gosto e acabou-se; e não há motivo no mundo por que deveria aceitar o gosto alheio só porque a maioria dos outros mortais gostam ou fingem gostar. Não posso seguir a moda em questões do que gosto ou do que não gosto.

235 ...irrompeu uma ou duas vezes num riso amargo ao visualizar a irmã e o noivo, todas as pessoas de sua própria classe e a de Ruth, norteando suas pequenas e estreitas vidas de acordo com pequenas e estreitas fórmulas - um rebanho de criaturas, andando em bandos e modelando suas vidas segundo as opiniões uns dos outros, fracassando em ser indivíduos e em viver a vida de verdade por causa das fórmulas infantis às quais estavam escravizadas. Ele as invocou num desfile de aparições e, um a um e aos pares, ele os julgou e os pôs de lado - julgou-os pelos padrões do intelecto e da moralidade que aprendera nos livros. Em vão indagou: Onde estão as grandes almas, os grandes homens e mulheres? Não os encontrou entre as mentes indiferentes, grosseiras e estúpidas que atenderam ao chamado da visão em seu pequeno quarto. Sentia uma aversão por elas, semelhante à que Circe devia ter sentido pelos porcos. 

Você era igual a todos eles, meu rapaz. Sua moralidade e seu conhecimento eram exatamente iguais aos deles. Não pensava nem agia por si. Suas opiniões, como sua roupa, vinham prontas; suas ações eram ditadas pela aprovação popular. Bem, os anos passaram, e o que pensa sobre isso agora?

237 Martin ignorava que Ruth não era simpática à alegria da Criação. Ela lera a respeito, estudara na universidade quando estava obtendo o título de bacharel em artes; mas ela não era original, nem criativa, e todas as manifestações de cultura de sua parte não passavam de imitações das imitações dos outros.

- Será que o editor não teve razão ao revisar a sua Sea lyrics? - ela indagou. - Lembre-se de que um editor tem que ter credenciais comprovadas, caso contrário não seria editor.

238 Eu vou falar-lhe sobre isso - interrompeu ele. - A qualificação principal de noventa por cento dos editores é o fracasso. Fracassaram como escritores. Não pense que preferem a monotonia do escritório e o fato de estarem limitados pela circulação e pelo gerente comercial à alegria de escrever. Tentaram escrever e fracassaram. E esse é o maldito paradoxo de tudo. Cada portal do sucesso literário está guardado por esses cães de guarda, os fracassos literários. Os editores, assistentes de edição e os que revisam os textos para as revistas e para as editoras são quase todos homens que queriam escrever e que fracassaram. E no entanto eles, de todos os entes na terra os menos indicados, são os mesmos que decidem o que deverá ou não ser impresso... eles, que provaram não ser originais, que demonstraram faltar-lhes a chama divina, presidem ao julgamento da originalidade e do gênio. E depois deles vêm os críticos, que são outros tantos fracassos. Não me diga que não sonharam um dia e não tentaram escrever poesias ou ficção; porque sonharam, e fracassaram. Ora, a média das críticas é mais repugnante que óleo de fígado de bacalhau. Mas você conhece minha opinião sobre os compiladores de resenhas e os chamados críticos. Existem grandes críticos, mas são tão raros quanto cometas. Se eu fracassar como escritor, estarei aprovado para a carreira de editor. Garante o pão com manteiga e geléia, de qualquer modo.

243 E tem mais - continuou ele, com ímpeto. - Você me ama. Mas por que me ama? Essa coisa dentro de mim que me leva a escrever é exatamente a mesma que desperta o seu amor. Você me ama porque, de algum modo, eu sou diferente dos homens que você conheceu e a quem poderia ter amado. Não nasci para sentar-me a uma escrivaninha num escritório, para as pequenas discussões comerciais e arranjos legais. Querer que eu faça isso, querer que eu seja igual aos outros homens, que eu faça o mesmo trabalho que eles fazem, respire o ar que respiram, adote o ponto de vista que adotaram, é destruir a diferença, é destruir-me, é destruir aquilo que você ama. O desejo que tenho de escrever é o que há de mais vital dentro de mim.

244 Tudo pode dar errado no mundo, mas o amor, não. O amor não pode dar errado, a não ser que seja fraco e desfaleça e tropece ao longo do caminho.

254 Há coisas demais sendo escritas por indivíduos que não sabem escrever a respeito de indivíduos que sabem.


Sinopse: Escrito durante uma viagem à volta do mundo no veleiro Snark, Martin Eden (1909) é o romance mais autobiográfico de Jack London. Descreve a sua luta para se cultivar, a fama literária que alcançou na juventude e a desilusão com o sucesso na maturidade. A identificação apaixonada do autor com o seu herói, Martin Eden, confere ao livro um poder e força de atracção inigualáveis. Ataque à burguesia, mas também aos valores do individualismo, deste romance emerge ainda a consciência crítica de London na luta pela transformação da sociedade do seu tempo.


RESUMO (não leia quem pretende ler o livro e não gosta 'que contem o final do filme')

Jack London é um dos escritores norte-americanos mais conhecidos. Suas histórias empolgaram gerações de jovens em todo mundo, especialmente as duas mais famosas, O Chamado Selvagem e Caninos Brancos.

Por causa disto, London é erroneamente mais conhecido como um mero escritor de aventuras. Isso não é exato. Autodidata e com uma vida repleta de aventuras, do Alasca aos mares do sul, ele escreveu mais de 40 livros, entre romances, contos e reportagens. Apesar de ser um individualista dos mais puros, ao longo de sua ida tomou contato com os movimentos socialistas, o que o levou a escrever livros de militância social, como O Tacão de Ferro.

Martin Eden, publicado recentemente pela editora Nova Alexandria, é considerado sua obra mais importante. Com fortes tons autobiográficos, ela narra a história do marinheiro Martin Eden, que se apaixona por uma moça de classe média, Ruth. Decidido a ascender socialmente para poder se casar com ela, e dotado de uma enorme curiosidade pelo saber, que identifica ser parte de uma existência superior a qual pertence sua noiva, decide se tornar um intelectual. Chega a estudar 19 horas por dia, enfrentando a incompreensão da família e de sua própria amada, que gostaria que ele se dedicasse a uma carreira convencional, como advogado.

Depois de já ter acumulado um nível extraordinário de conhecimentos, Martin passa a escrever contos e romances que manda para as revistas literárias, que, com exceção de um ou outro, os rejeita. Só interrompe seu trabalho intelectual quando já não tem mais dinheiro e é obrigado a se empregar numa lavanderia. Lá o regime de trabalho é opressivo e estafante, o que leva Martin à falta de interesse pelos livros e à bebida. Ele então sai do serviço e volta a escrever. Para sobreviver, escreve também folhetins e literatura barata para vender a revistas populares.

Sua força de vontade o faz continuar no seu objetivo, mas fica desanimado com a falta de compreensão de Ruth. Percebe que o meio em que ela vive é repleto de convencionalismos falsos, preocupação com as aparências e vazia de vida intelectual. Martin não consegue se conciliar com este modo de vida, é um espírito livre, percebe que seus estudos o elevaram intelectualmente acima desta pequena burguesia medíocre e o fazem desprezar seus preconceitos: “O realismo é necessário à minha natureza e o espírito burguês odeia o realismo. A burguesia é covarde. Receia a vida.”

Martin se diz um discípulo de Nietzsche, um individualista que professa o credo dos fortes: “Não havia dúvida de que o mundo pertencia aos fortes”, “Os homens verdadeiramente nobres estavam acima da piedade e da compaixão. Piedade e compaixão haviam-se gerado nos barracões subterrâneos dos escravos e nada mais eram do que a agonia e o suor de uma multidão de fracos e miseráveis.” Esta crença vinha da consciência da sua própria superioridade intelectual.

É com estas convicções que ele vai a uma assembléia operária e refuta os socialistas. Nesta assembléia havia um repórter que, não sabendo acompanhar a discussão, e não entendendo os argumentos utilizados, no dia seguinte escreve um artigo sensacionalista colocando Martin como o líder de um grupo de socialistas raivosos. Martin o agride e ele escreve outro artigo mentiroso. A família e vizinhos de Martin se voltam contra ele, e os pais de Ruth a obrigam a romper o noivado.

Martin fica arrasado com estes ataques e incompreensão de suas idéias, e ainda mais por ver na sua amada toda a superficialidade burguesa que ele detestava: “Fora uma Ruth idealizada que amara, uma criatura etérea por ele próprio criada, espírito brilhante e luminoso de seus poemas de amor. A verdadeira Ruth burguesa, com todos os seus defeitos burgueses, com todas as irremediáveis arestas de uma psicologia burguesa – essa ele nunca amara.”

Martin faz mais uma tentativa de publicar seus trabalhos e consegue. De repente, ele se torna um sucesso de publico e crítica, todos querem adquirir seus escritos e ele se torna rico. Mas esse sucesso se torna mais uma frustração para ele: o público só está interessado em alguma novidade, os críticos são incapazes de entende-lo e tecem apenas comentários vulgares. Sua obra literária, no qual ele pôs toda a sua alma e o amor pela vida, é apenas um modismo que a industria cultural oferece ao grande público.

As portas da alta sociedade agora se abrem para ele. A sua família, que antes o chamava de vagabundo por não procurar um emprego, agora o adula. Os burgueses obtusos que não entendiam seus pontos de vista e pensam apenas por imitação, o convidam agora para jantares e a ingressar em clubes privados. Ruth tenta reatar o noivado, agora que ele conta com a aprovação de todos. Mas Martin não aceita.

Pode-se dizer que Martin agora é um vencedor. Consegue ascender na escala social por seu próprio esforço e mérito e se torna rico e prestigiado, mas para ele esta fama não tem sentido algum. A vida intelectual e a pureza de sentimentos que ele imaginava existir nas esferas superiores não existem. O amor que sentia por um ser que só existia em sua imaginação não resistiu à prova da realidade.

Tenta se reaproximar dos seus velhos amigos da classe operária, mas um abismo se interpõe entre eles, devido aos estudos de Martin. Ele perde então todo o entusiasmo em continuar escrevendo, sua vida se torna um tremendo vazio. O violento tédio que se apossa de sua existência o leva a um trágico fim.

Um romance extraordinário e cheio de vigor, é ainda hoje uma denuncia eloqüente da industria cultural e das falsas convenções que tornam célebres escritores medíocres, na canonização que impede qualquer espaço para as novidades. O ataque que fez Martin às autoridades universitárias ainda hoje tem validade: “Sua missão consiste em pegar todos os jovens que freqüentam a universidade e eliminar-lhes do cérebro qualquer luminosa originalidade que por acaso lá se albergue, e, em lugar dela, pôr-lhes o selo do convencionalismo.”

Apesar de ser Martin um individualista, a sua própria história é uma refutação de sua crença. O argumento de que o mundo pertence aos fortes é desmentido pelo tempo que passou na lavanderia, onde o trabalho esmaga a vontade e a iniciativa, por mais que a pessoa seja forte. Tudo isso é escrito por alguém que conheceu o processo desumano da maquina industrial. London aqui faz um ajuste de contas com seu antigo mestre Nietzsche, de um modo sutil e com seu estilo sempre vivo e apaixonante. O livro inteiro é uma reflexão sobre a divisão entre trabalho intelectual e manual, a busca de valores verdadeiros em uma sociedade sem valores e a solidão e incompreensão sofrida pelos que não se submetem à mediocridade estabelecida.

Para quem nunca leu um livro de London, Martin Eden é uma excelente introdução, e possivelmente o fará querer ler mais.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

JACK LONDON - Por Um Bife E Outras Histórias de Boxeadores 2006 1909 1911 1900s 1910s

Recomendo O BRUTO INSONDÁVEL (The Strength of the Strong) 1911

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domingo, 30 de dezembro de 2012

Jack London - A Paixão do Socialismo / De vagões e vagabundos & outras histórias 1890s 1900s 1910s 1997

"Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não guarda delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, eu estou contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para mais uma vez pôr o edifício inteiro a balançar. Algum dia, quando tivermos poucas mãos e alavancas a mais para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida em putrefação e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo."
(Trecho de "A paixão do socialismo")

Textos:

"O herege"
"De vagões e vagabundos – Memórias do submundo"
"Na gaiola – Uma experiência na prisão"
"A prisão"
"Como me tornei socialista"
"A paixão do socialismo"
"Os mascotes de midas"


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sábado, 20 de outubro de 2012

Trechos de Memórias Alcoólicas - John Barleycorn - Jack London 1913


43 Mas este não é um mundo de fretes livres. Paga-se de acordo com uma férrea tabela de preços - para cada demonstração de força de vontade, a fraqueza correspondente: para cada ascensão, uma queda; para cada fictício momento divinal, um tempo equivalente de lama abjeta. A cada proeza de dias longos e telescópicos, de semanas e semanas de vida constituídas de instantes loucos e magníficos, deve-se pagar o preço da vida abreviada, acrescido, muitas vezes, de juros de usurário.

Intensidade e duração são inimigos tão antigos quanto fogo e água. Mutuamente destrutivos. Incapazes de coexistência. E John Barleycorn, por mais poderoso necromante que fosse, continua tão escravizado à química orgânica como todos os mortais. Pagamos sempre por todas as nossas ousadas maratonas, John Barleycorn está impossibilitado de interferir e impedir o pagamento justo. Ele pode nos levar às alturas, sim, mas não consegue nos manter lá, do contrário seríamos todos devotos. E não existe devoto que queira pagar as sarabandas malucas promovidas por John Barleycorn.


46 O jogo não valia a pena. O preço era muito alto. Eu não tinha constrangimentos morais. Minha náusea era puramente física. Aqueles momentos de exaltação não justificavam horas de desgraça e aflição.


-47 Eu tinha vislumbrado uma miríade de sinais, todos eles sedutores e inflamados, de um mundo além do meu mundo, e para o qual estava tão adestrado quanto os dois rapazes que beberam comigo. Descobri o segredo da alma dos homens. Descobri o segredo da minha alma e encontrei nela potencialidade e grandezas insuspeitadas.


Sim, aquele dia sobressaiu entre todos os meus dias. Até hoje ele se destaca. A lembrança está marcada a ferro quente no meu cérebro. Mas o preço cobrado foi muito alto.


Aguardente não combinava comigo. Era abominável. Mas apesar disso, as circunstâncias iriam me impelir de novo para John Barleycorn, impelir-me sempre, até que depois de longos anos chegou o tempo em que pude encarar John Barleycorn em todas as tocas habitadas pelos homens; encará-lo e saudá-lo como benfeitor e amigo. E detestá-lo e odiá-lo o tempo todo. Sim, ele é um amigo estranho, esse John Barleycorn.


212 A velha e longa doença que fora simplesmente uma enfermidade intelectual, recrudesceu. Os antigos fantasmas, de há muito sepultados, levantaram novamente as cabeças. Porém, eram fantasmas diferentes e mais mortais. Os velhos fantasmas, intelectuais em sua origem, tinham sido enterrados por uma lógica sã e normal. Agora, no entanto, eram levantados pela Lógica Branca de John Barleycorn, e John Barleycorn nunca impede os fantasmas de se erguerem.


Como descrever esta Lógica Branca aos que nunca a experimentaram? Talvez seja melhor afirmar antes de tudo a impossibilidade de tal descrição. Consideremos a Terra do Haxixe, por exemplo, a terra onde predominam enormes extensões de tempo e de espaço. Em anos anteriores eu fizera duas memoráveis jornadas àquela terra distante. Minhas aventuras ali estão gravadas nos mínimos detalhes em meu cérebro. Contudo, tenho tentado inutilmente, com infindáveis palavras, descrever qualquer pequena fase particular a pessoas que não viajaram até aquela terra.


-213 Eu utilizava todas as hipérboles da metáfora e narrava então o que séculos de tempo e abismos de agonia e horror inimagináveis podem ser obtidos em cada intervalo de todos os intervalos entre as notas de uma canção veloz tocada com velocidade no piano. Falo durante uma hora, elaborando aquela fase da Terra do Haxixe, e no fim verifico que nada lhes disse. E quando sou incapaz de lhes transmitir a vastidão das coisas terríveis e maravilhosas, sei que não consegui dar-lhes a mais leve idéia da Terra do Haxixe.


Mas, se me permitem conversar com outro viajante daquela região misteriosa, de imediato serei compreendido. Uma frase, uma palavra transporta imediatamente à mente o que horas de palavras e frases não conseguem levar ao espírito do não-viajante. Por conseguinte, é no reino de John Barleycorn que a Lógica Branca reina. Aos que por lá não viajaram, o relato do viajante deve parecer sempre ininteligível e fantástico. No melhor dos casos, posso pedir aos não-viajantes que se empenhem em acreditar na minha narrativa.


Pois existem intuições fatais da verdade que residem no álcool. Parece haver várias categorias de verdade neste mundo. Algumas espécies de verdades são mais verdadeiras que outras. Alguns tipos de verdade são mentiras, e tais tipos são aqueles de maior valor de uso para a vida que se deseja compreender e viver. De imediato, ó leitor não-viajante, veja como é lunático e blasfemo o reino que estou tentando descrever na linguagem da tribo de John Barleycorn. Não é a linguagem da tua tribo, daqueles que resolutamente evitam as estradas que levam à morte e trilham apenas as estradas que conduzem à vida. Pois existem estradas e estradas, e quanto à verdade, existem categorias e categorias. Mas tem paciência. Pelo menos, através do que parece nada mais que queixumes verbais, tavez recolhas, por acaso, um fraco vislumbre dos panoramas de outra terras e tribos.


214 a velhice, apesar dos pesares, é decente, digna e valiosa, embora idade avançada signifique um espantalho pele e osso na carroça de um mascate, tropeçando atordoado numa servidão sem misericórdia  e numa lenta desintegração até o fim - o fim, a partilha de suas partes (de sua carne sutil, dos seus ossos rosados e elásticos, de seus sucos e fermentos, e de toda aquela insensatez que o animou) [...] até o último cambaleio do seu claudicante final, esse cavalo de carroça deve suportar as determinações da verdade menor que é a verdade da vida, e que faz a vida possível de nela se persistir.


Esse cavalo de carroça, como todos os outros cavalos, como todos os outros animais, incluindo o homem, está cego para a vida e embotado para a razão. Viverá - não importa a que preço. O jogo da vida é bom, conquanto tudo na vida se resuma em sofrimento, e embora no final todas as vidas percam o jogo. Esta é a categoria de verdade que se obtém, não para o universo, senão para as coisas vivas, se estas perdurarem por um curto espaço, antes de morrerem. Esta categoria de verdade, não importa o quanto errônea venha a ser, é a categoria sã e normal da verdade, a categoria racional da verdade em que a vida deve acreditar a fim de viver.


215 Ao homem, considerado isoladamente entre os animais, foi concedido o terrível privilégio da razão. O homem, com suas faculdades mentais, pode penetrar a embriagadora mostra de coisas e perscrutar um universo descaradamente alheio a ele e a seus sonhos. Pode fazer isso, mas não lhe fica bem fazê-lo. Para viver, e viver com intensidade, para borbulhar de vida, para estar vivo (o que é ser o que ele é), é bom que o homem seja cego para a vida e embotado para o sentido da razão. O que é bom e verdadeiro. E esta é a categoria de verdade, por menor que seja, que o homem deve conhecer e tomar como guia de seus atos, com a irrespondível certeza de que é verdade absoluta, e que, no universo, nenhuma outra categoria de verdade ele virá obter. É bom que o homem aceite pelo valor nominal os embustes da razão e os abismos da carne, e através dos nevoeiros da sensibilidade busque as tentações e mentiras da paixão. É bom que ele não veja nem sombras nem futilidades, e tampouco seja atraído por suas luxúrias e rapacidades.


E o homem faz assim. Homens incontáveis têm colhido um lampejo desse outro tipo mais verdadeiro de verdade, e dele recuado. Homens incontáveis têm passado pela longa enfermidade e vivido para narrá-la e deliberadamente esquecê-la até o final de seus dias. Eles viveram. Eles se realizaram na vida, porque a vida é o que eles foram. Eles fizeram bem.


E eis John Barleycorn com a maldição atirada sobre o homem de imaginação, que está cheio de vida e desejo de viver. John Barleycorn envia sua Lógica Branca, o mensageiro prateado da verdade além da verdade, a antítese da vida, cruel e oco como o espaço interestelar, fraco e congelado como o zero absoluto, deslumbrante com a geada da lógica incontestável e do fato inesquecível. John Barleycorn não deixará o sonhador sonhar, o vivedor viver. Ele destrói nascimento e morte, dissipa em névoa o paradoxo do ser, até que a sua vítima explode, como em "The City of Dreadful Night": "Nossa vida é um logro, nossa morte é um abismo negro". E os pés de tão assustadora intimidade começam então a palmilhar o caminho da morte.


217 Volto às experiências pessoais e aos efeitos que a Lógica Branca de John Barleycorn causou em mim. Na minha aprazível fazenda do Vale da Lua, com o cérebro toldado de álcool durante meses, me sinto oprimido pela tristeza cósmica que sempre foi herança da humanidade. Em vão eu me pergunto porque estou triste. Minhas noites são cálidas. Meu telhado não tem rombos. Tenho comida de sobra para todos os caprichos do apetite. Me cercam todos os confortos possíveis. Em meu corpo não há dores nem sofrimentos. A velha máquina de carne continua bem azeitada, funcionando. O cérebro e os músculos não estão esgotados. Tenho terra, dinheiro, poder, reconhecimento mundial, a consciência de que faço jus a um galardão pelos serviços prestrados a outros -a companheira que amo, filhos que são a minha própria carne. Tenho feito e continuo fazendo o que um bom cidadão do mundo faria. Tenho construído casas, muitas casas, e cultivado centenas de acres. E quanto a árvores, já não plantei cem mil? Por toda a parte, de qualquer janela de minha casa, posso olhar fixamente essas árvores da minha prosperidade, que se erguem altaneiras em direção ao sol.


-218 Com efeito, minha vida tem incluído lugares agradáveis. Mil homens em um milhão não têm a minha sorte. E no entanto, com toda esta imensa boa sorte, estou triste. E estou triste porque John Barleycorn está comigo, porque nasci no que as gerações futuras chamarão de idade negra, antes da civilização racional. John Barleycorn está comigo porque em todos os dias da minha despercebida juventude John Barleycorn esteve acessível, me chamando e me atraindo em todas as esquinas, e em todas as ruas entre uma esquina e outra. A pseudocivilização em que nasci concedeu por toda a parte alvará de funcionamento a lojas que vendem o veneno da alma. O sistema de vida foi organizado de tal maneira que eu (e milhões como eu) fui induzido e arrastado e empurrado para as lojas vendedoras de veneno.


Venha andar comigo, num dos meus inúmeros estados de tristeza em que John Barleycorn me mergulha com frequência. Cavalgo por minha bela fazenda. Monto num bonito cavalo. O ar cheira a vinho. As vinhas, numa sucessão de colinas, estão avermelhadas pela labareda do outono. Do outro lado da montanha Sonoma, franjas de névoa marinha avançam devagar. O sol vespertino arde do céu modorrento. Tenho tudo para estar contente por estar vivo. Estou cheio de sonhos e mistérios. Sou sol e ar e flama. Sou vital, orgânico. Movimento-me, tenho o poder do movimento, comando o movimento da coisa viva que me transporta. Estou possuído pelas pompas do ser, conheço paixões e inspirações orgulhosas. Tenho dez mil augustas conotações. Sou um rei no reino da razão e calco a superfície do pó que não se queixa...


-219 E no entanto, fito com olhos preconceituosos toda essa beleza e maravilha ao meu redor, e com preconceito mental penso na lastimável figura que  faço neste mundo que passou tanto tempo sem mim e que voltará a permanecer sem a minha presença. Relembro os homens que arrebentaram corações e nervos neste solo teimoso que agora me pertence. Como se algo imperecível pudesse pertencer ao perecível! Aqueles homens desapareceram. Eu também desaparecerei. Aqueles homens trabalharam, limparam a terra e plantaram, olhando fixamente com os olhos doridos, enquanto descansavam os corpos do duro labor, aqueles mesmos crepúsculos e poentes, a glória outonal dos vinhedos e os farrapos de névoa em lentas evoluções do outro lado da montanha. E eles se foram. E eu sei que também irei um dia desses.


Irei? Estou indo. No meu maxilar estão adaptados artifícios de dentista que substituem partes já desaparecidas. Jamais voltarei a ter os polegares do meu tempo de jovem, prejudicados irreparavelmente por aquelas lutas romanas e brigas de socos. Aquele soco na cabeça de um sujeito, cujo nome foi esquecido, danificou o polegar de uma vez e para sempre. Uma escorregadela em luta-livre estragou o outro polegar. Minha barriga encolhida, da época em que fui mensageiro, entrou para o limbo da memória. As juntas das pernas que me sustentam já não são tão eficazes como antes, quando, em selvagens dias e noites de trabalho pesado e farras, eu as forcei, esfolei e rompi. Nunca mais cometerei a ousadia de oscilar vertiginosamente no alto do cordame, em meio à escuridão fechada de uma tempestade marítima. Nunca mais poderei correr com os cães de trenó pelos quilômetros sem fim da trilha do Ártico.


Estou ciente de que dentro deste corpo em desintegração, que está morrendo desde que nasci, carrego um esqueleto; que sob a capa de carne do que é chamado meu rosto existe um ossudo crânio sem nariz. Nada disso me assusta. Ter medo é ser saudável. O medo da morte prolonga a vida. Mas a maldição da Lógica Branca é dessas que não infunde medo. A doença mundial da Lógica Branca faz uma pessoa portar-se jocosamente diante do Sem Nariz e zombar de todas as fantasmagorias dos vivos.


-220 Olho ao redor enquanto cavalgo, e em cada mão eu vejo a impiedosa e infinita dissipação da seleção natural. A Lógica Branca insiste em abrir livros há muito fechados, e em cada parágrafo e capítulo afirma beleza e a maravilha que eu observo, mas em termos de futilidade e poeira. À minha volta, ouço murmúrio e zumbido dos vivos que, como um enxame de mosquitos, silvam por algum tempo seus débeis queixumes no ar agitado.


Retorno à fazenda. O crepúsculo caiu, os animais de presa saíram das tocas. Observo o piedoso e trágico jogo da vida que se alimenta da vida. Aqui não há moralidade. Somente no homem existe moralidade, afinal o homem foi quem a criou - um código de ação em benefício dos vivos e que faz parte da categoria inferior de verdades. Contudo, tudo isso eu já sabia, nos dias enfastiados da minha longa enfermidade. As muitas verdades que eu, com tanto êxito, me empenhei em esquecer; verdades tão sérias que me recusei a levá-las em conta, com elas brincando delicadamente, isso mesmo, de forma tão delicada como se fossem cães adormecidos no fundo da consciência e que eu não queria despertar. Eu não os provoquei, deixei-os dormir. Pois eu era muito sábio, malignamente sábio para querer despertá-los. Só que agora a Lógica Branca quer porque quer despertá-los para mim, pois a Lógica Branca, mais valente, não teme nenhum dos monstros dos sonhos terrenos.


-221 "Deixe que os doutores de todas as escolas me condenem", a Lógica Branca me sopra enquanto eu cavalgo. "E daí? Eu Sou a verdade. Você a conhece. Você não pode me combater. Dizem que eu provoco a morte. E daí? É verdade. A vida mente a fim de viver. A vida é uma ciranda louca na crista da onda, em que surgem aparências de fortes marés enchente e vazante, acorrentadas às rotações da luas fora do nosso alcance. Aparências são fantasmas. A vida é terra fantasmal onde as aparências mudam, se transubstanciam, se permeiam entre si e entre todas, aparências ou não, que sempre tremulam, esmaecem e se apagam, apenas para voltarem outra vez com novas aparências, como outras aparências. Você é uma dessas aparências, composta de incontáveis aparências oriundas do passado. Tudo o que uma aparência pode fazer é miragem. Você conhece miragens do desejo. Tais miragens são as impensáveis e incalculáveis agregações de aparências que o assediam e o formam do fundo do passado, e que o varrem, disseminando-o em outros impensáveis e incalculáveis aglomerados de aparências a fim de povoar a terra fantasmal do futuro. A vida é fantasmal, ela passa. Você é uma aparição. Através de todas as aparições que o precederam e que compõem as suas partes, você se orgulha com a sua algaravia do lodo evolucionário, e ainda inarticulado você passará, interfundindo-se, permeando-se com a procissão de aparições que o sucederão."


E naturalmente tudo é irrespondível, e, enquanto cavalgo por entre sombras crepusculares, escarneço do Grande Fetiche a que Comte chamou de mundo. E me lembro de outro pessimista de sensibilidade que afirmou: "Transitórios todos são. Os que nascem devem morrer e, mortos, ficam contentes por estarem em repouso".


Mas aqui, varando o crepúsculo, aproxima-se um que não se sente satisfeito por estar em repouso. É um operário da fazenda, um velho, um imigrante italiano. Tira o chapéu para me saudar, com a maior servilidade, porque, certamente, para ele eu sou o dono da vida. Eu o alimento, dou-lhe abrigo e vida. Ele tem trabalhado como um burro de carga a vida inteira, e vivido com menos conforto do que os meus cavalos em seus estábulos atapetados de palha. Ele é aleijado. Arrasta os pés quando anda. Tem um ombro mais alto do que o outro. Suas mãos são garras nodosas, repulsivas, horríveis. COmo aparição, ele é um espécime bem miserável. Seu cérebro é tão estúpido e quanto feio é o corpo.


-222 "Seu cérebro é tão estúpido que ele ignora ser uma aparição", a Lógica Branca me diz com uma risada escarninha. "Ele é um bêbado da razão. É o escravo do sonho da vida. Tem o cérebro cheio de sanções e obsessões superracionais. Acredita em outro mundo transcendente. Deu ouvidos aos caprichos dos profetas que lhe sopraram a suntuosa bolha do Paraíso. Ele sente afinidades inarticuladas com não-realidades invocadas por si mesmo. Vê visões penumbrosas de si mesmo, titubeando fantasticamente pelos dias e noites do espaço e das estrelas. Ele está convencido, além da sombra de qualquer dúvida, de que o universo foi feito para ele, e que é seu destino viver para sempre nos reinos imateriais e supersensuais que ele e sua espécie têm construído com o material da aparência e da decepção.


"Mas você, que tem aberto livros e que partilha da minha confiança extrema - você o conhece pelo que ele é, irmão seu e irmão do pó, uma brincadeira cósmica, um passatempo da química, uma besta paramentada que se levantou da pilha da bestialidade mais aguda por obra e acidente de dois dedos grandes do pé. Ele é irmão igualmente do gorila e do chimpanzé. Ele bate no peito quando tem raiva, ruge e treme com cataléptica ferocidade. Ele conhece impulsos monstruosos, atávicos, e está composto de todas as maneiras de pedaços de abismo e de instintos esquecidos."


"E, no entanto, ele sonha que é imortal", eu contesto fracamente. "É maravilhosos para um punhado de barro tão estúpido montar nos ombros do tempo e cavalgar as eternidades."


"Bah!", é a réplica. "Você acaso pretende fechar os livros e trocar de lugar com esta coisa que não passa de um apetite e um desejo, um joguete do estômago e dos rins?"


"Ser estúpido é ser feliz", eu retruco.


"Então o seu ideal de felicidade é um organismo semelhante à geléia, flutuando num mar tépido, sem ondas e crepuscular, ahn?"


223 "Ora, a vítima não pode combater John Barleycorn!"


"Um passo a menos para a felicidade aniquiladora do Nirvana de Buda", acrescenta a Lógica Branca. "Ah, be, eis aí a sua casa. Anime-se, homem, tome uma bebida. Conhecemos bem, nós os iluminados, você e eu, a loucura e a farsa."


E em meu pequeno quarto com as paredes cobertas de livros, que são mausoléus dos pensamentos dos homens, eu tomo meu copo, e outros copos, e os cãoes que dormiam nos recessos do meu cérebro eu os acordo e os atiço contra as muralhas do preconceito e da lei e por todos os astuciosos labirintos da superstição e da crença.


"Beba", diz a Lógica Branca. "Os gregos acreditavam que os deuses lhe deram o vinho a fim de que pudessem esquecer a miserabilidade da existência. E não esqueça o que Heine disse."


Sim, eu bem me lembro das palavras ardentes daquele judeu. "Com o último suspiro, tudo se vai: alegria, amor, tristeza, macarrão, teatro, limeiras, gotas de framboesa, a força das relações humanas, o mexerico, o ladrar dos cães, o champanhe".


"Sua luz branca e clara é doença", eu digo à Lógica Branca. "Você mente."


"Por lhe transmitir uma verdade tão forte", ela retruca com ironia.


"Ai de mim, é verdade. A vida é tão desgovernada!", reconheço com tristeza.


"Ah, muito bem, Liu Ling foi mais sábio que você", a Lógica Branca observa. "Lembra-se dele?"


Concordo com um aceno de cabeça. Liu Ling, um alcoólatra do grupo de poetas beberrões que se denominavam os Sete Sábios do Túmulo de Bambu, e que viveu na China mais de um século atrás.


-224 "Foi Liu Ling", incita a Lógica Branca, "que declarou que para um bêbado os assuntos do mundo não passam de lentilhas d'água num rio. Muito bem. Beba outro scotch, e deixe que as aparências e as decepções se transformem em lentilhas d'água num rio".


E enquanto me servia e bebericava meu scotch, lembrei-me de outro filósofo chinês, Chuang Tzu, que, quatro séculos antes de Cristo, desafiou esta terra de sonhos que é o mundo, ao dizer: "Como vou saber que os mortos se arrependem de se terem apegado à vida? Os que sonharam com o banquete despertam para as lamentações e as tristezas. Os que sonharam com lamentos e tristezas despertam para se juntarem à caçada. Enquanto sonham, eles não sabem que sonham. Alguns chegam a interpretar o sonho que estão sonhando; e somente quando acordam sabem que foi um sonho... Os tolos pensam que agora estão despertos, e se gabam de saber se são mesmo príncipes ou camponeses. Confúcio e você são, ambos, sonhos; e eu, que afirmo que você são sonhos - eu também não passo de um sonho".


"Uma vez eu, Chuang Tzu, sonhei que era uma borboleta pousando aqui e ali, segundo os intentos e propósitos de uma borboleta. Tinha consciência apenas de seguir minhas fantasias como borboleta, e estava inconsciente quanto à minha individualidade como homem. De repente, acordei e eis-me ali, outra vez. Só que agora não sabia se eu era então um homem sonhando com uma borboleta, ou se sou agora uma borboleta sonhando que sou homem."

228 "Esta sua carne lhe pertence? Ou é uma coisa estranha possuída por você? Seu corpo - o que é? Uma máquina para converter estímulos em reações. Estímulos e reações são recordados. Constituem uma experiência. Então você toma consciência de tais experiências. Você é a qualquer momento o que você está pensando naquele momento. Sou eu é ao mesmo tempo sujeito e objeto; afirma coisas de si mesmo e é a soma das coisas afirmadas. O pensador é o pensamento, o conhecedor é aquilo que é conhecido, o possuidor é o conjunto de coisas possuídas.


"Antes de tudo, como você não ignora, o homem é um fluxo de estados de consciência, um fluxo de pensamentos que passaram, cada um pensando ser outro ser, numa infinidade de pensamentos, numa infinidade de seres, um contínuo vir-a-ser mas nunca sendo, um fogo-fátuo de fantasmas em terra fantasmal. Mas isso o homem não aceita de si mesmo. Ele se recusa a aceitar sua própria morte. Ele não morrerá. Viverá novamente, mesmo que tenha de morrer para que isto aconteça.


-229 Ele mistura átomos e jatos de luz, as mais remotas nebulosas gotas de água, picadas sensíveis, lama e massas cósmicas, de cambulhada com pérolas de fé, amor de mulher, dignidades imaginadas, suspeitas assustadoras, arrogância pomposas - e desse material constrói para si mesmo uma imortalidade para espantar os céus e confundir as imensidades. Ele se retorce na sua pilha de esterco e, tal qual uma criança perdida na escuridão em meio a duendes, grita aos deuses que é irmão destes, seu irmão mais moço, um prisioneiro da carne viva que está destinado a ser tão livre quanto eles- monumentos de egotismo criados pelos epifenômenos; sonhos e pó dos sonhos, que desaparecem quando o sonhador desaparece e nada mais são quando o sonhador morre.


Não constituem novidade algumas estas mentiras vitais que os homens a si próprio dizem, aos sussurros, aos murmúrios, como se fossem mágicas e encantos contra os poderes da Noite. Os voodoos e curandeiros e feiticeiros foram os pais da metafísica. A Noite e o Sem Nariz foram os ogres que obstruíram o caminho da luz e da vida. E os metafísicos venceriam, se para isso tivessem de contar mentiras. Eles foram perturbados pela brônzea lei do Eclesiastes, segundo a qual homens morrem como as bestas do campo e seu fim é o mesmo, seus credos foram seus esquemas, suas religiões, suas panacéias, suas filosofias, seus ardis pelos quais eles quase acreditaram que poderiam exceder em astúdia o Sem Nariz e a Noite.


Luzes do charco, vapores de misticismo, sugestões psíquicas, orgias da alma, lamentações nas trevas, gnosticismos misteriosos, véus e tecidos de palavras, subjetivismos ininteligíveis, apalpadelas nas trevas e sussurros, fantasias ontológicas, alucinações psíquicas - eis o material, os fantasmas de esperanças que enchem suas estantes. Olhem só para eles, tristes aparições de homens tristes, loucos e apaixonados rebeldes - seus Schopenhauers, seus Strindbergs, seus Tolstóis e Nietzsches."


"Basta. Seu copo está vazio. Encha-o e esqueça."


-230 Obedeço, pois meu cérebro agora é uma comichão de vermes criados pelo álcool, e enquanto bebo aos pensadores tristes das minhas estantes, cito Richard Hovey:


"Abster-se, não! Vida e Amor, noite e dia,

Se nos oferecem à suas própria feição
E não à nossa. Aceita a dádiva com alegria
Antes que te devorem os vermes do chão."

"Eu o aprisionarei", grita a Lógica Branca.


"Não", respondo, enquanto os vermes me enlouquecem. "Eu conheço você pelo que é, e não o temo. Sob a sua máscara de hedonismo você é o Sem Nariz, e seus caminhos só conduzem à Noite. O hedonismo não tem significação. Também é uma mentira, no melhor dos casos é o compromisso presunçoso do covarde..."


"Eu o aprisionarei!", a Lógica Branca interrompe.


"Mas se esta pobre vida não te satisfaz,

Ora, livre és para findá-la se te apraz
E sem receio de acordar após a Morte."

E eu ri desafiador; pois agora, e por um momento, reconheço a Lógica Branca como o arquiimpostor de todos eles, a soprarem seus cochichos de morte. E ela é culpada de seu próprio desmascaramento, sua química jovial virando as mesas sobre ela própria, seus vermes mordendo as velhas ilusões ainda vivas, ressuscitando e fazendo soar a antiga voz do fundo da minha juventude, dizendo-me outra vez que ainda são minhas as possibilidades e poderes que a vida e os livros me disseram que não existiam.



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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A verdade está dentro de nós; não vem de fora, como às vezes supomos.

Há em nós um refúgio onde a verdade se esconde, mas em redor dele...
Erguem-se muralhas de carne que o escondem.

Fonte

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

JACK LONDON & CHARMIAN KITTREDGE LONDON - fotos - imagens

Assinatura


1885 (9 anos)

1886

1887 (da direita pra esquerda, é o segundo da segunda fila de baixo pra cima; em cima da primeira menina de preto da direita pra esquerda)

No final de 1890s

1900

1902

1903

1904

1905

1906

Terremoto de 1906 em San Francisco

Na contrução do Snark, 1906

O Snark

No Snark



Charmian
1907

1909

1910

1911

1913

1914

1915

1916

Novembro 1916

2 semanas antes de ser assassinado pela Oligarquia (1916)

6 dias antes de ser assassinado pela Oligarquia (1916)

Charmian (1923)

Jack & Charmian (? data desconhecida)

Bess London & Joan London (filhas)

Joan, Bess ("Becky") & Bessie Maddern London (primeira esposa)

Charmian's

Jack's

1911-1916

Casa de Charmian London dos 7 aos 15 anos

Jack & Charmian's grave (sepultura)

Flora Wellman (Jack's mother)

John London (Jack's father)

entre 1902-1907

Havai (Hawaii)

Klondike (Truckee, California)


Charmian


-

CHARMIAN LONDON:

1922



1930

1943


1913

1907

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